terça-feira, 11 de agosto de 2015

Susan Sontag: Relatos de guerra e solavancos tipográficos.

[Stephen Dillane interpreta o editor Leonard Woolf na Hoggart Press do filme As Horas de Stephen Daldry, 2001. ]

Na cinebiografia ficcional “As horas”, que retrata um dia na vida da escritora Virginia Woolf, é possível ver Leonard Woolf reprovando manuscritos por conta de diversos erros de grafia em uma única página de provas submetida à Hoggart Press por parte de um escritor iniciante . Pois bem, se é verdade que a vida imita a arte, isto parece acontecer com distorções, rasuras. Erros de grafia, erros tipográficos, erros de escolhas editoriais. Erros.

[1ª edição brasileira de "viagem a Hanói" ed. expressão e cultura, 1968]

Sempre fui fascinado do Susan Sontag. Assim como Virginia, compro tudo o que encontro sobre/(d)ela.Foi assim que adquiri uma edição antiquíssima de “Viagem a Hanói” (ed. expressão e cultura, 1968). Surpreendentemente, um dos primeiros textos de Sontag vertidos ao português no Brasil. Pode-se dizer que a autora presenciou 3 guerras [Vietnã, Bósnia, e “ao terror” (sic)] e foi com entusiasmo que me dediquei à leitura daquele relato de guerra, uma vez que tenho especial interesse nas narrativas de mulheres escritoras sobre tempos bélicos. Outro livro ícone neste sentido é “three guineas” de Virginia Woolf, infelizmente ainda inédito por aqui.

[ o livro "Viagem a Hanói" aparece em cena do filme "Os sonhadores" de Bertolucci, 2003. ]


Então, foi com esse mesmo entusiasmo que comprei “Viagem a Hanói”, mas a alegria não duraria muito. O livro era uma colônia de ácaros tão desenvolvida que não consegui passar da segunda página. Meses depois comprei no Estante Virtual, por puro acaso, a 2ª coletânea de ensaios de Susan Sontag. “A vontade Radical” (Cia das Letras, 1987). Fora de catálogo há anos. E qual não foi minha surpresa quando percebi que o último texto, o maior de todos, era exatamente o relato “Viagem a Hanói”. O mesmo havia sido incorporado pela autora naquela seleção. Contudo, a leitura deste livro também seria impossível pelos mesmos motivos anteriores: ácaros e sinusites.

Então maldisse os deuses: por que a Cia. das Letras não relançava este que é um livro com ensaios seminais sobre Bergman, Godard, etc. reconhecidos internacionalmente? E aproveitei para reclamar para Ninguém: por que a L&PM não lança novas edições de “contra a interpretação” e “o benfeitor”? (a primeira e bombástica coletânea de ensaios e o fracassado primeiro romance de Susan Sontag respectivamente).

Porém, como um dia os livros voltam à luz, a vez de finalmente ler “Viagem a Hanói” havia chegado. É agosto de 2015 e eu descubro que a Cia das Letras acaba de relançar “A vontade radical” em versão pocket. Corro para a livraria. Localizo o livro. Leio finalmente as primeiras páginas do relato de guerra, mas espere... Eu li isso mesmo? Volto o olhar na página 216. Releio. “ninguém cuja língua materna fosse e (sic) inglês”. Sigo em frente. Empolgado com o relato da autora... Outro entrave. Agora é demais. “o trio arbitrariamente reunido, embora inseparável, em uma neva (sic) terra”. Dois erros tipográficos na mesma página.

Não, não é preciosismo. A Cia das Letras edita 3 das minhas escritoras favoritas: Sontag, Hannah Arendt e Ana Cristina Cesar e eu já vinha, como leitor, contrariado com o que foi feito na coletânea “Poética” desta última escritora. Uma traição, desculpe não há outro termo, ao projeto gráfico de “a teus pés”. Único livro publicado em vida pela poeta carioca (ainda vou escrever com mais detalhes sobre esta edição. Que estará disponível aqui). Ok, é uma forma de divulgação da obra, de apresentação de Ana Cristina às novas gerações, etc e tal.

Ouvi meu próprio argumento de mim para mim, mas não aceito.

E agora, em outra obra super-aguardada, outro tipo de deslize, este de ordem tipográfica. Dois erros na mesma página. E a mesma voz complacente poderia dizer: é edição de bolso. É de caráter divulgatório. Mais pessoas terão aceso às seminais ideias de Susan Sontag. Novamente escuto de mim para mim, mas não aceito. Principalmente se levar em consideração a obsessão destas autoras pela “apresentabilidade” de seus textos. Lembro vagamente que só tinha visto erros assim, na Cia das Letras, há bastante tempo, na antiga edição de “o mundo de Sofia” ou “o dia do coringa”. Nem me recordo ao certo qual deles.

Como leitores do excelente catálogo desta editora, em especial dos livros de Susan Sontag, esperamos esmero nas suas edições e aguardamos com ansiedade o lançamento do segundo volume de seus diários “As Consciousness Is Harnessed to Flesh”. E esperamos que o que nos salte aos olhos seja o brilhantismo dos relatos íntimos e não os solavancos tipográficos da edição.

Por enquanto, sigamos Susan Sontag na devastada Hanói de 1968.