terça-feira, 28 de julho de 2015

Queering “Raízes do Brasil”

Uma das principais obras da chamada Formação Social Brasileira é o livro “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Nele, boa parte da argumentação, em especial no capítulo “o homem cordial”, é construída a partir da interpretação hegeliana de Antígona, tragédia grega de Sófocles. Nas palavras do escritor brasileiro, montado nos ombros de Hegel:
“Ninguém exprimiu com mais intensidade a oposição e mesmo a incompatibilidade fundamental entre os dois princípios [família x Estado] do que Sófocles. Creonte encarna a noção abstrata, impessoal da Cidade em luta contra essa realidade concreta e tangível que é a família. Antígona, sepultando Polinice contra as ordenações do Estado, atrai so­bre si a cólera do irmão, que não age em nome de sua vontade pes­soal, mas da suposta vontade geral dos cidadãos, da pátria”

[o escritor Sérgio Buarque de Holanda]

Então... no final de 2014, chegou ao Brasil a tradução da obra “O clamor de Antígona”, na qual Judith Butler desmonta com elegância e brilhantismo não só a interpretação hegeliana (ainda estou lendo essa parte) como também a de Lacan.
No desmonte da tese de Hegel é posta em xeque exatamente a centralidade desta tensão Família/parentesco x Estado. Na qual, Antígona representaria - segundo Hegel - o primeiro polo. Ora, para Butler, Hegel “não só aceita seu desaparecimento [o de Antígona] fatal da cena pública, como também ajuda a conduzi-la para fora da cena e para sua tumba”. Ou seja, Hegel mais do que narrar os acontecimentos da tragédia, na verdade ajuda a criar a dizibilidade de uma Antígona condenada por transgredir uma [suposta] universalidade do Estado ético.

Na argumentação da teórica queer, Antígona não reapresenta a ordem privada, da família que se confronta com a lei universal do Estado, mas sim do desejo que desafia o ordenamento jurídico encarnado em Creonte (aqui a autora inicia sua contestação a partir de Lacan, para também desconstruí-lo mais na frente) e a transgressão das regras elementares do parentesco (tese obviamente calcada em Levi-Strauss).

Assim, Butler parece abrir um novo caminho para a interpretação da peça de Sófocles. Caminho este, inclusive, parcialmente elogiado por Slavoj Zizek em “Bem vindo ao deserto do Real! (voltaremos a este tema mais na frente). Uma consequência disto, é a possibilidade de queerificar as tais “Raízes do Brasil” e a tese do homem cordial. Quem já começou a fazer tal empreitada, de certa forma, foi Richard Miskolci em seu livro “o desejo da nação”. Mas isto é tema para uma outra postagem. Seguimos, por enquanto, lendo a Antígona de Judith Butler.

sábado, 25 de julho de 2015

25 de julho: dia do escritor.

Adiei por séculos a estreia do blog esperando a vontade de sistematizar em linhas gerais as impressões de toda a literatura que li durante o primeiro semestre do ano. Como a vontade de des-empilhar as ideias não veio, vou iniciando assim, aos trancos, apenas pontuando as obras literárias por ordem de leitura.
1. "A viagem" de Virginia Woolf. Escrito há exatamente 100 anos, é a estreia da escritora inglesa na ficção. Tradução de Lya Luft.
2. "O sol e o peixe" de Virginia Woolf. Coletânea de ensaios poéticos da escritora inglesa. Tradução Thomas Tadeu - 2015.
3. "The Show queen" de Michael Cunningham. Sexto romance do escritor norte-americano publicado em 2014. Edição americana. Ainda inédito no Brasil.
4. "Clarice Lispector, essa desconhecida" de Julio Lerner. Livro de memórias sobre a antológica entrevista feita pelo jornalista à escritora em 1977, bem como sua relação com a obra da autora.
5. "Assim vivemos agora" de Susan Sontag. Provavelmente a primeira obra ficcional a tratar com centralidade a temática da AIDS. Publicada originalmente na Revista The New Yorker em 1986. Tradução de Caio Fernando Abreu.
6. "Dois garotos se beijando" de David Levitham. Classificado no gênero de Young-adult fiction (ficção para jovem-adulto), o Romance é uma espécie de acerto de contas/diálogo das diferenças e similaridades entre a atual geração gay e sua geração anterior.
7. "Michael Tolliver lives" de Armistead Maupin. O protagonista da famosa série de crônicas dos anos 1970 na cidade de São Francisco, "Tales of the city" (no Brasil: Histórias da Cidade), retorna para contar como anda sua vida aos 50 e poucos anos em 2007. Inédito no Brasil. Edição Americana.
8. "Os perigosos" de Marcelo Secron Bessa. Ensaios de crítica literária sobre as relações entre Autobiografia e AIDS.
9. "Memórias de um legionário" de Dado Villa-Lobos. Autobiografia do ex-baterista da banda de Rock brasileira Legião Urbana.
10. "Antígona" de Sófocles. Tragédia grega sobre as tensões entre parentesco e Estado.